O que é leitura sintópica? Você consegue ler da forma mais avançada?

Ler não é apenas decifrar as letras e saber o que elas dizem. O ato da leitura vai além do reconhecimento de palavras e frases. Existem níveis de competência, dentre os quais o mais elevado e exigente é a leitura sintópica. 

Em 1940, Mortimer J. Adler e Charles Van Doren publicaram um livro chamado How to Read a Book: the classic guide to intelligent reading (Como ler livros? O Guia clássico para a leitura inteligente). 

Em 1972, o livro passou por alterações que os próprios autores fizeram. O sucesso foi absoluto e parte do que eles ensinaram será resumido a seguir.

O que você vai aprender neste artigo?

  1. Os 4 níveis de leitura de Mortimer Adler;
  2. O que é leitura sintópica?
  3. A leitura sintópica cria um debate entre autores diferentes;
  4. Os 5 passos da leitura sintópica;
  5. O problema da falta de leitura sintópica;
  6. Você consegue tirar proveito da sua leitura?

Os 4 níveis de leitura de Mortimer Adler

A leitura não é uma atividade linear. Existem quatro níveis diferentes no ato de ler, que foram identificados por Mortimer Adler. Lidando melhor com cada etapa, tira-se muito mais proveito dos livros.

Os quatro níveis de leitura são:

  1. Leitura elementar;
  2. Leitura inspecional;
  3. Leitura analítica;
  4. Leitura sintópica.

Com as estratégias para ler melhor, presentes em cada nível, é possível melhorar a capacidade de concentração, a capacidade analítica, o nível das discussões e o debate público.

Cada nível de leitura será detalhado para que todos identifiquem qual tem praticado.

O primeiro nível é o da leitura elementar. Basicamente, trata-se da decodificação das letras, sem envolvimento intelectual e emocional. De forma elementar, as frases são lidas e o contexto é entendido, sem aprofundamento.

  • Este é o nível da alfabetização funcional, envolvendo simplesmente a habilidade de juntar sílabas, compreender frases e identificar informações em um texto.

O segundo nível é o da leitura de inspeção. O leitor torna-se capaz de ler como se fosse um detetive, lendo mais de uma vez, analisando frases, títulos, índices e todo detalhe que dê pistas sobre o assunto. Trata-se de uma leitura rápida, apenas para descobrir o que há no livro, mas com uma intenção de pesquisa.

  • Este é o nível de sondagem, envolvendo escolher e catalogar livros a partir do tema central abordado. É necessariamente uma leitura rápida, feita para se ter descobertas.

A leitura inspecional pode ser feita em cruz, na diagonal. Neste caso, apenas são lidos os títulos, subtítulos, citações, listas, índices, sinopses, o prefácio e o posfácio. Inclua-se nesta estratégia as informações que ficam nas costas dos livros.

Outra estratégia possível é a leitura rápida, sem parar para refletir ou estudar os temas que não foram entendidos. Basta ler rapidamente, realizando a “leitura dinâmica” para saber se o livro merece dedicação ou não.

O terceiro nível é o da Leitura Analítica. O leitor se envolve completamente com o que está lendo, dedicando muito mais tempo e esforço. Ele descobre se quer ler inspecionando, e então começa a ler de fato. A compreensão do texto é a melhor possível e o intuito é conseguir formular um entendimento sobre o que foi lido. 

  • Este é o nível em que o leitor cria uma relação com o autor, lendo detalhadamente. Devem ser feitas anotações, fichamentos, resumos, exposições e contextualizações concretas.

O quarto nível é o da Leitura Sintópica. Este é o mais avançado, no qual o leitor consegue comparar vários livros diferentes, interconectando temas ou comparando diversos pontos de vista de vários autores. A conclusão a que se chega pode não estar em livro algum, mas ser o produto do pensamento do leitor.

Todos estes níveis possuem detalhamentos próprios, regras de como proceder em cada etapa e dicas para um melhor proveito. 

Neste artigo, a leitura sintópica será melhor detalhada e exemplificada.

O que é leitura sintópica?

A Leitura Sintópica é um dos quatro níveis de leitura pensados por Mortimer Adler. Neste nível, o leitor consegue comparar e relacionar diversos livros, envolvendo intertextualidade. Textos do mesmo autor ou de autores diferentes podem ser comparados.

Adler recomendou que o agisse como um advogado, tentando defender seu autor frente aos outros autores que escolheu.

Uma das técnicas que ele ensina é a do diálogo com o autor. Para uma boa leitura, deve-se estabelecer uma boa conversa com quem escreveu o livro. Como a Leitura Sintópica envolve a comparação, é como se o leitor estivesse colocando vários autores para conversarem entre si.

Desta forma, uma profundidade única é alcançada na leitura.

A leitura sintópica pode ser chamada de comparativa?

A leitura é uma ferramenta na transmissão do conhecimento. Vários autores já registraram o produto de suas reflexões, mas em épocas diferentes.

Compete ao leitor atual recolher o que foi dito sobre um mesmo tema e comparar, localizando pontos contrastantes ou semelhantes. 

Aquele que consegue ler sintopicamente, alcançou o nível mais avançado e profundo de leitura. O nível analítico busca um autor ou um livro com profundidade. O sintópico faz a mesma coisa, mas com vários autores, vários livros.

A partir deste nível, é possível que uma ideia nova, que não está em livro algum, surja.

A pesquisa pode revelar algo que nenhum autor escreveu especificamente, mas que é fruto do que vários disseram, como que somando o conhecimento ou percebendo algo que não foi contemplado.

O que os vários clássicos possuem em comum?

O que autores de diferentes épocas e países disseram em acordo?

Em que discordaram?

O maior benefício da leitura sintópica é levar o leitor a sua própria perspectiva. Ela pode levar o leitor a ter opiniões e ideias inesperadas.

A leitura sintópica cria um debate entre autores diferentes

Nietzsche poderia conversar com Chesterton?

E se Sócrates conversasse com os filósofos modernos?

Até mesmo Santo Tomás de Aquino poderia se encontrar com aquele que nomeou de O Filósofo, Aristóteles.

Ao entender o que é leitura sintópica, descobre-se que todos estes diálogos, impossíveis no tempo, tornam-se possíveis intelectualmente. Por isso, trata-se do nível de leitura mais exigente.

Se algum leitor compreende bem as ideias de Platão, por exemplo, já consegue representar na mente o que Platão diria sobre alguns assuntos. Se também compreendeu Machado de Assis, pode fazer o mesmo.

Por fim, poderia tentar responder o que um filósofo grego poderia dizer em comum com um mestre da literatura realista brasileira.

Sem o nível da leitura sintópica, não surgem bons mestrados e doutorados, por exemplo. Quem chega a este nível, precisa saber relacionar autores e obras diferentes. 

Correlações também podem ser feitas envolvendo os clássicos da literatura mundial. Algo muito comum tem sido perceber como os mitos de vários povos possuem um núcleo comum. Isto pode ser percebido e extraído de suas narrativas.

Esta correlação entre temas importantes para várias culturas é um exemplo do modo mais avançado de leitura. Mas, como fazer isso?

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Os 5 passos da leitura sintópica

Para realizar a leitura sintópica é preciso seguir estes cinco passos:

  1. Inspecionar: A leitura inspecional é um instrumento que auxilia o leitor na fase sintópica, porque é preciso selecionar os livros e as partes que serão estudadas e interligadas.
  2. Assimilar: Esta é a etapa em que se faz a leitura analítica do material selecionado.
  3. Perguntar: Quais perguntas os autores poderiam responder? Como cada um responderia?
  4. Reunir assuntos: As respostas às perguntas, coletadas de cada autor, poderão revelar novos assuntos a serem estudados.
  5. Conversar: Este é o aspecto mais importante da leitura sintópica. Mais do que descobrir teses específicas, é possível simular a conversa entre os autores para encontrar algo inédito.

Quando se diz que os autores respondem ou que conversam, deve-se entender que o leitor consegue extrair isto da leitura. Mortimer Adler ensina a lidar com os livros desta forma, como uma conversa com outra pessoa que não está presente, mas que registrou seu pensamento.

“Aprender com um livro é aprender com um professor ausente. Ao terminar a leitura, o ideal é saber mais do que antes dela, conhecendo mais.”

Exemplo de Leitura Sintópica

Suponha-se que um pesquisador queira abordar o tema da morte na literatura, reunindo personagens diferentes e suas visões sobre o fim da vida. Ele reunirá diversos títulos que podem conter esse assunto.

Na primeira etapa, ele fará a leitura inspecional de todas as obras que ele presume que podem ajudá-lo. Desta forma, ele descobrirá quais deverá ler com atenção.

Após esta seleção, ele lerá, de fato, os livros escolhidos. Fará perguntas aos seus autores e estudará se eles apresentam uma resposta.

Com a visão de morte de cada um e tendo em mente como foi o final de cada um dos personagens escolhidos, novos assuntos, temas e perguntas podem surgir.

Por fim, o leitor tirará suas conclusões de tudo o que ele reuniu.

Basicamente, seleciona-se os livros por relevância, busca-se os temas nos livros, encontram-se os argumentos e trechos que são relevantes, as divergências, concordâncias e produz-se uma análise.

O problema da falta de leitura sintópica

Este é o nível mais exigente de leitura e nem todos querem realizá-lo. Não há problema algum nisso. Nem todas as leituras cumprem a finalidade de intercalar autores e refletir algo a partir do que disseram.

Muitos querem ler detalhadamente apenas uma obra. Outros querem ler para se divertir, relaxar e exercitar a imaginação. Não há depreciação nisso.

O problema é a falta de habilidade com leitura sintópica por parte daqueles que estão em uma carreira acadêmica. Em um certo nível da graduação em uma universidade, já se espera que o aluno tenha estas habilidades.

Nos níveis de pós-graduação, como mestrado ou doutorado, esta é uma exigência. Entretanto, na realidade brasileira, muitos alcançam estas posições sem estas habilidades de leitura. Este é o problema.

Alguém que queira ser pesquisador ou professor em nível superior precisa da leitura sintópica.

  • Para entender melhor o problema da educação brasileira, assista a trilogia Pátria Educadora.

Como ser mais inteligente?

Não é impossível que estudantes não universitários alcancem este aprofundamento, mas são exceções. 

Por último, não só mestres e doutores são chamados a buscar um entendimento melhor sobre assuntos de seus interesses. Todos que iniciam um caminho de estudos podem conseguir o mesmo.

O padre Sertillanges escreveu um livro sobre a vida intelectual e as principais dicas que ele legou podem ser lidas no artigo sobre como ser mais inteligente.   

Você consegue tirar proveito da sua leitura?

Muito se fala dos analfabetismo funcional. Esta é a realidade de quem aprendeu a ler, lê e não entende. Sabendo o que é a leitura sintópica, e todos os níveis antes dela, as habilidades de uma pessoa podem melhorar muito quando forem estudar ou apreciar um livro.

E para cada tipo, há técnicas diferentes. Manuais, livros históricos, livros filosóficos, fantasias, romances, novelas, peças de teatro, epopeias, teorias científicas… nenhum deles é lido da mesma forma.

Técnicas de leitura diferenciadas facilitam o proveito de cada gênero textual. Leituras ativas que aumentam o conhecimento de quem lê devem ser o principal objetivo, em relação a leituras passivas. Nestes casos, fecha-se a última página sem saber o que foi lido.

Comente e compartilhe. Quem você acha que gostará de ler sobre o que é leitura sintópica?

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