Escravidão no Brasil – Entenda o regime escravocrata da sua origem à abolição

“Já houve um historiador que disse que nós reconstruímos o passado a partir dos dados do presente, que é o presente que faz a história, e não a história que faz o presente.” Estas são as palavras de Alberto da Costa e Silva, diplomata e um dos mais ilustres historiadores brasileiros. Com mais de 80 anos, ele concedeu uma entrevista para explicar a escravidão no Brasil.

Além dele, a Brasil Paralelo contou com outros especialistas, como os historiadores e professores Thomas Giulliano, Flávio Alencar e Paulo Cruz na abordagem do tema.

O que você vai aprender neste artigo?

  1. A formação do povo brasileiro;
  2. Resumo da história da escravidão;
  3. Escravidão africana;
  4. A origem da escravidão no Brasil;
  5. Como foi a escravidão no Brasil?
  6. Escravização dos africanos;
  7. Características da escravidão brasileira;
  8. A família real e o abolicionismo;
  9. O fim da escravidão no Brasil;
  10. Festa de abolição da escravatura.

A formação do povo brasilerio

O primeiro passo para estudar a escravidão no Brasil, é entender que o nosso país foi feito mais de fora para dentro, do que de dentro para fora.

A maior composição do Brasil foi feita pela presença de indivíduos de outros continentes. Eles foram essenciais para a formação da primeira camada de nacionais brasileiros, os caboclos, mestiços de europeus com indígenas. 

Quanto aos africanos, o Brasil recebeu mais de 5 milhões e possivelmente mais. Como eram trazidos por contrabando, não havia registros, relatos ou estatísticas.

Infelizmente, foram poucos os homens de saber que se interessaram pelas histórias de escravos durante o período da escravidão no Brasil.

José Bonifácio de Andrada e Silva, por exemplo, conversou com escravos e ouviu deles o percurso que fizeram. Alguns mudaram de dono de quatro a cinco vezes.

Se houvesse mais desses relatos, seria mais fácil entender a participação dos escravos na construção do Brasil. Atualmente, historiadores detêm-se exclusivamente nos aspectos mais crueis da escravidão, sem ressaltar toda a riqueza que o negro trouxe.

Miscigenação

O Brasil tornou-se uma nação única, já a partir da colonização, pois os exploradores chegaram e ficaram no país a ser explorado. 

A presença constante dos europeus, sobretudo os portugueses, fez da miscigenação um fato brasileiro desde o descobrimento. Esta é a característica brasileira mais marcante, tese que se deve a Gilberto Freyre, um dos que melhor entendeu o país nesse sentido.

De acordo com esse sociólogo, o povo brasileiro é essencialmente uma mistura. A miscigenação não era vista com maus olhos até o século XIX, quando as teses eugenistas começaram a propagar, por exemplo, que não se deveria misturar o sangue europeu com o africano.

Gobineau e Tocqueville, pensadores franceses, mesmo que de formas distintas, advogaram pela tese de que o negro era atrasado na linha evolutiva. 

Posteriormente, surgiu a tese de que miscigenar era uma técnica de eliminação da população negra, com fins de gerar um branqueamento das pessoas. 

Curiosamente, tudo mudou mais uma vez. Agora, conta-se o miscigenado como sendo negro. Nessa perspectiva, miscigenar é aumentar o número da população negra. 

Seguindo a linha de pensamento de Gilberto Freyre, não faz sentido falar de uma raça específica em um país como o Brasil

O DNA mestiço

Hoje, muitos ativistas da causa negra não aceitam a miscigenação brasileira, porque sabem que isso é tornar ilegítima a própria causa, já que não haverá separação do povo brasileiro com base na cor. 

As mulheres indígenas, por exemplo, são tidas como as grandes mães brasileiras, o grande útero do país.

Os portugueses e demais imigrantes vinham em grupos predominantemente masculinos. A chamada boa composição da escravaria era aquela que saía da África com três homens por mulher, o que não acontecia.

Os estudos recentes de DNA provam que a presença indígena e africana é muito forte na composição do homem brasileiro, o típico que se vê na rua. Quanto mais se adentra no interior do Brasil, mais se vê o índio, o africano, o português, o alemão e o italiano.

O escravo não foi apenas um meio de produção, mas também um agente significativo na formação social. 

Resumo da história da escravidão

A escravidão é um infeliz fato presente em toda a história humana. Não é possível considerar as culturas ao redor do globo, em seus milênios, sem considerar o papel da escravidão. 

Trata-se de um problema universal, vinculado à formação de todos os povos. A condição de escravo era o resultado de ser vencido em uma guerra e perder sua liberdade, nascer de uma escrava, ou não conseguir pagar dívidas. Até mesmo pais vendiam seus filhos por falta de condições econômicas.

A escravidão também ocorreu por sentido religioso e por vingança. Por essas razões, usava-se o adversário como mão de obra.

Na história mundial e também no período colonial brasileiro não se pensava que o escravo era um ser humano de menor dignidade. As pessoas não eram escravas por se pensar que tinham menos valor enquanto seres humanos.

Racismo

A escravidão era uma instituição completamente reconhecida no mundo antigo. Por essa razão, falar em reparação histórica com base na raça e na etnia é uma falácia, porque o fundamento não foi a cor. 

O racismo nasceu da escravidão e não a escravidão do racismo.

A escravidão colonial brasileira e americana não é racial, mas se torna racial no século XIX quando surgem as teses eugenistas. Afinal, os escravos foram associados aos africanos e aos seus descendentes.

O fato concreto de que a maioria dos escravos brasileiros vinha da África fez com que ser africano passasse a ser relacionado a ser escravo. Esta é uma relação acidental. Ser africano não era a justificativa para ser escravo. Era uma circunstância. 

Apenas no século XIX, começaram a surgir justificativas para a evolução humana. Isso é alheio à explicação da escravidão no Brasil.

Os portugueses do século XVII acreditavam que todos os seres humanos tinham nascido de um mesmo casal, Adão e Eva.

Escravidão, Cristianismo e Renascimento

A cultura escravocrata começou a mudar quando os cristãos fizeram um acordo entre si de que, em caso de guerra, um cristão não faria outro cristão escravo. Com a cristianização da sociedade, a escravidão entrou em declínio na Europa. 

Os que não respeitavam essa regra eram os muçulmanos, que ainda faziam os cristãos de escravos. 

Foi o renascimento que trouxe uma renovação do mundo antigo no que tinha de bom e ruim. Entre tantos resgates, recuperou-se a noção de que o trabalho manual é inferior ao trabalho intelectual, considerado mais digno. 

Durante a idade média, uma das principais regras monásticas era ora et labora. Mas os modernos desconsideraram o trabalho como um meio de elevação do homem.

Nesse contexto, a escravidão também foi recuperada pelo renascimento, já que os antigos a usavam. Ser contra a escravidão foi considerado um preconceito cristão.

Ao se falar em escravidão no Brasil, é preciso recordar o Livro V das Ordenações Filipinas, diploma penal que vigorou no país. Ele estabelecia uma punição para os que não batizavam seus escravos.

Os que tinham escravos com menos de 10 anos deveriam batizá-los como se fossem seus filhos ou perderiam o escravo a quem o denunciou. Se fossem considerados apenas coisas sem alma, como ainda se ensina, seria um sacrilégio batizá-los.

Aos maiores de 10 anos, o batismo deveria ser oferecido e se o escravo não quisesse, o proprietário teria a obrigação de chamar o padre local para convencê-lo. Se ainda assim não quisesse, o padre registraria que o escravo daquele senhor não quis receber o batismo, desobrigando o senhor da lei.

Mas antes que se aborde as principais característicasda escravidão no Brasil, é necessário compreender o tema na própria África.

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Escravidão africana

No século XVI, a possibilidade da escravidão era vicejante na África, já que as tribos faziam guerra e os vencidos se tornavam escravos dos vencedores. A África era repleta de pequenos reinos, poucos deles firmemente estabelecidos.

O comércio de escravos feito no próprio território sempre foi intenso. O português, por exemplo, não chegou na costa africana arrastando os negros à força. Já existia um comércio de pessoas. 

Os negros escravizavam negros antes que os portugueses escravizassem negros. As autoridades africanas negociavam com as autoridades portuguesas. A escravidão era tutelada porque era lucrativa.

A escolha dos africanos para serem escravizados não foi motivada pela cor da pele, mas sim pela oportunidade. Chefes e reis passaram a trabalhar com negociação de escravos, fazendo guerras e vendendo escravos para outros senhores. 

O que a escravidão colonial fez na história do mundo foi inaugurar o comércio ultramar.

O interesse na escravidão era financeiro e não racial. Não se considerava que o escravo era menos humano, ou que não tinha alma. Essa noção não existia na escravidão do Brasil ou na África.

É importante ressaltar que não existiu um regime escravocrata uniforme.

A escravidão do povo axânti era diferente da escravidão dos zambudos. A escravidão dos grandes reinos era diferente da escravidão nos pequenos. 

Em alguns casos, após duas ou três gerações, o escravo passava a ser um homem livre e até parte de uma família. 

Parece estranho não pensar em si mesmo livre, mas pensar na liberdade do neto ou bisneto. É uma distinção importante, porque em algumas regiões da África o escravo continuava pertencendo ao seu senhor mesmo após a morte

Havia culturas que enterravam os escravos com uma corda no pescoço, mantendo a ponta fora da terra para ser puxada se necessário. Isso não acontecia, mas demonstrava que a escravidão ali continuava.

Na vida de algumas tribos, quando morria um chefe, o costume era matar 20, 30 ou até 40 escravos para acompanhá-lo na outra vida.

Em outros territórios, o descendente de escravos continuava sendo considerado como tal. 

A escravidão foi praticada de diferentes formas

Qual tipo de escravo veio ao Brasil? Negros era de linhas africanas diferentes,pois vinham de regiões diferentes da África. 

Ao estudar esse assunto, não é o mais adequado buscar a diferença entre a escravidão no Brasil e na África. Há diferenças no tempo e no local entre escravidões adotadas por determinadas culturas.  

Existia escravidão na África, mas no plural. A que nasceu lá foi diferente da que nasceu no Brasil. Foi diferente ser escravo em um continente novo, inclusive convivendo com negros inimigos por serem de etnias diferentes.

Escravidões na América foram diferentes de escravidões na África e escravidões na África foram diferentes de escravidões entre si e na América também.

Nas Minas Gerais do século XVIII, a escravidão foi diferente da ocorrida nos engenhos de açúcar de Pernambuco do século XVII. A escravidão doméstica do Rio de Janeiro foi diferente da ocorrida na Bahia.

É simplório dizer que vieram africanos para o Brasil. Vieram povos libolos, pendes, iorubás, pepes, mandingas, macuas e muitos outros. Muitos, tão diferentes, nunca tinham se visto no próprio continente.

Lima Barreto, jornalista e escritor, abordou a diferença do negro no Brasil em relação aos outros lugares.

Havia embates entre negros africanos e negros brasileiros. Na colônia havia negros ricos além de negros escravos. Claro, não foi a regra, a escravidão no Brasil é uma mácula, mas para discutir a cidadania é preciso pensar nestas questões.

A escravidão assumiu formas muito distintas

A origem da escravidão no Brasil

Por volta de 1530, quando os portugueses implantaram o sistema de capitanias hereditárias e começaram o processo colonizador de fato, iniciou-se o uso de mão de obra escrava.

Antes disso, a exploração de pau-brasil era obtida com ajuda dos índios e mediante o escambo, fazendo troca de mercadorias com eles.

Com a existência das capitanias, os engenhos de cana de açúcar começaram a se desenvolver. Como se tratava de uma atividade mais complexa e que demandava um grande número de trabalhadores braçais, os negros foram usados.

No século XVII, os africanos se tornaram a maioria, superando o número de indígenas escravos.

Qual o período da escravidão no Brasil?

O processo de escravidão no Brasil teve início em meados de 1530 e terminou no dia 13 de maio de 1888. Quando os portugueses começaram a implantar efetivamente a colonização da América portuguesa, o regime escravocrata foi utilizado. 

A região era difícil de ser explorada, os índios eram difíceis de serem dominados. Dentro das tribos indígenas, não havia escravidão. O inimigo de guerra não servia para produção de excedentes. 

O negro vendido na costa Africana, entretanto, era uma mão de obra barata já acostumada à lavoura e à mineração.

Entre os séculos XVI e XVII, houve muitas tentativas de escravizar os indígenas nativos, mas eles foram substituídos gradativamente pelos africanos que chegavam por meio do tráfico negreiro.

A escravidão foi a principal peça no sistema econômico brasiliero por aproximadamente 400 anos.

Como foi a escravidão no Brasil?

Há muitos mitos sobre o que era a escravidão no Brasil Colonial. No século XX, Gilberto Freyre, José Pedro Galvão, Arlindo Veiga Santos e Pedro Calmon fizeram questão de estudar o período colonial com o que tinha de bom e de ruim.

Passa-se a impressão de que os escravos foram simplesmente uma mão de obra desqualificada. Ao contrário, trouxeram técnicas, processos de produção, maneiras de trabalhar e instrumentos de trabalho diferentes do que tinham os imigrantes que vieram para o Brasil.

Por exemplo, os portugueses buscavam o ouro e a prata do Brasil, de Angola ou de Moçambique. Os metais preciosos eram essenciais para o comércio com a China, Índia e com o Oriente em geral. Até o século XIX, o Oriente era a fonte de todas as riquezas e o comércio feito no Índico foi o Grande Comércio por muitos séculos.

Os chineses e indianos não tinham interesse pelos produtos europeus. Eles produziam produtos de luxo altamente qualificados e o comércio internacional era, basicamente, feito de produtos desse tipo.

Os escravos africanos chegados no Brasil tinham as técnicas para localizar, cavar minas e separar o ouro dos demais minerais, que eram desconhecidas. Até a descoberta de ouro nas Américas, grande parte da moeda europeia e árabe era feita com ouro da África.

Os portugueses não tinham minas de ouro e não estavam acostumados a esse trabalho. A mão de obra africana trouxe a técnica da exploração do ouro e da fundição do ferro. 

Os escravos já trabalhavam ferro em Minas Gerais com diferentes formas, pois cada escravo tinha tradições próprias. 

Havia novidades também no cultivo de determinados vegetais e na criação de gado solto em grandes extensões de terras. Embora muitos escravos tenham sido usados para cortar cana, guardavam a habilidade de fazer coisas muito melhores com as técnicas que sabiam. 

A tecelagem é outro exemplo para ilustrar essa realidade. Era proibido ter indústria de tecelagem no Brasil, mas não era proibido ter escravos que sabiam tecer. Algumas fazendas, por essa razão, tinham teares simples.

O africano que veio para o Brasil merece um crédito que não é dado. Foi um dos construtores da nação.

Escravização dos africanos

Quando o povo português se viu com demanda de mão de obra barata, já existia uma oferta para supri-la na própria África. 

O Brasil era um país difícil de ser explorado e o indígena havia rejeitado trabalhar em lavouras. Desta forma, a escravidão que já ocorria no continente africano se extendeu às colônias.

Sequer é possível dizer que a escravidão ocorrida no brasil foi mais violenta que outras, como a escravidão romana ou muçulmana. O que diferencia os tipos de escravidão é o distanciamento histórico, já que a modernidade torna as coisas mais visíveis. 

O que a faz a escravidão colonial parecer extremamente cruel são seus registros fotográficos, frutos da era moderna. Há muitas narrativas de abuso e isso é algo mais recente na memória. 

Mas o mundo antigo também foi violentíssimo.

Escravidão no Brasil, economia e ideologia

O Brasil conheceu situações muito particulares no período escravocrata. Havia negros que se tornavam livres e, na condição de senhores, adquiriam seus próprios escravos.

Escravos no Brasil tinham escravos ou ao menos a possibilidade de ter escravos. A escravidão é sempre apresentada no grande engenho, o que não é a regra.

Na economia brasileira, onde o sistema econômico era escravista, era comum as pessoas terem escravos. Nesse sistema, o negro era escravo e, quando livre, usava a mão de obra corrente: a escravidão.

É preciso estudar esse tema sem sentimentalismo, ou não se abordará os detalhes e nuances que ele carrega, fazendo recortes emocionados da história.

O sistema escravista brasileiro não pode ser bipartido, como se todos os portugueses fossem senhores de engenho e todos os negros sempre fossem os injustiçados e escravizados.

Desde o Brasil Colônia havia negros livres no país. Ele não era escravo por ser negro, era escravo por causa de um sistema econômico que encontrou uma organização na costa africana que vendia mão de obra barata.

É um erro lidar ideologicamente com dados.

A conclusão é um desenvolvimento da pesquisa e não algo pronto com o qual se revisita a história. O que a militância faz é definir onde quer chegar, para depois ler a história com uma ótica já enviezada. 

  • Saiba mais sobre o movimento Black Lives Matter que começou nos EUA e chegou ao Brasil.

Estudar a história em todas as suas nuances, envolve relembrar que, apesar da humilhação a que foi submetido, o negro teve forças para impor modelos de ser, costumes e deixar suas histórias. 

Este momento do Brasil Colônia não pode ser resumido a abordar a ferocidade da escravidão, tão somente, que recrutava, concervava e obrigava o africano ao trabalho. 

Tudo isso está muito misturado e é difícil distinguir nas comunidades brasileiras o que se deve ao índio, o que se deve aos diferentes tipos de africanos, aos europeus ou asiáticos. 

Características da escravidão brasileira

Os primeiros africanos começaram a chegar por volta de 1550. Eram trazidos por meio do tráfico negreiro. Os portugueses possuíam feitorias instaladas na África desde o início do século XV e já possuíam relações com os reinos africanos para a compra de escravos.

A principal demanda atendida foi nos engenhos de açúcar. As jornadas de trabalho eram exaustivas e chegavam a durar até vinte horas por dia, além de serem marcadas pela violência.

O engenho era um sistema moderno. Em pequenas propriedades, o senhor e o escravo trabalhavam juntos. Em outros, o negro podia exercer a função de contabilidade também.

Nas moendas, local em que a cana de açúcar era moída para obtenção de caldo, ocorriam muitos acidentes em que os escravos acabavam amputados.

Nas fornalhas e caldeiras, era recorrente acontecer queimaduras nos escravos. Como era um trabalho muito árduo, era destinado aos mais rebeldes.

Os escravos recebiam, na maior parte dos senhorios, um tratamento desumano. Curiosamente,a dieta alimentar do escravo brasileiro do século XVIII era superior à dos pobres do século XX. 

Completavam sua alimentação com o que se obtinha em pequenas lavouras cultivadas aos domingos, dormiam no chão das senzalas e eram monitorados para não fugirem. 

Os que trabalhavam em casas grandes, com seus donos, recebiam tratamento, alimentação e vestimentas melhores que os demais. Além do mais, a cidade contava com escravos que exerciam diferentes ofícios.

Nos centros urbanos ou no interior das fazendas, o castigo físico era comum, caso o escravo cometesse erros ou atos de rebeldia. A punição mais corriqueira era o açoitamento, que consistia em bater neles com chicote.

No contexto da escravidão no Brasil, além das agressões, as escravas ainda corriam o risco de serem exploradas sexualmente.

Por causa de tantos maus tratos, havia muita resistência, fugas, formação de quilombos e uma crescente reprovação por parte da sociedade da época.

Alforria

Na escravidão no Brasil, a alforria era uma concessão do senhor, ainda que o escravo tivesse dinheiro.

Alguns negros não conseguiam comprar a alforria, então compravam escravos. Alguns pagaram sua alforria com seus próprios escravos. Outros começaram a produzir a própria riqueza com eles.

Havia diferença entre escravos urbanos e rurais. Nem sempre o negro lutou por sua alforria. Eles também lutaram para se tornarem senhores.

Tráfico em navios negreiros pelo atlântico

O aumento da demanda de mão de obra conduziu à prosperidade do comércio de escravos. O tráfico negreiro era lucrativo para quem comprava e para quem vendia.

A importação de mão de obra escrava, pelo tráfico em navios negreiros, fez parte da construção do Brasil. Vieram pessoas das mais diferentes partes da África e, de algumas regiões, mais que outras.

A prática do tráfico de negros já acontecia na África e era muito intenso. Pessoas eram vendidas como escravas por dívidas.

Muitas vezes, o cativo fazia viagens que duravam até dois anos na própria África, até chegar ao porto de embarque. Em um período tão longo, mudaram de donos, de linguagem e tinham contato com muitas culturas diferentes.

Havia mais de 18 tipos de navios negreiros. Os mortos de cada navio negreiro girava em torno de 20%, incluindo negros e tripulantes.

O navio negreiro do estado portugues era diferente. Os escravos tinham uma dieta alimentar com três refeições, higienização, alongamento, acompanhamento de padres e anulação de chicotes.

As leis marítimas envolviam prescrições legais. O escravo tinha um custo e não era vantajoso que morressem. 

Ao tráfico negreiro está ligada fortemente a luta abolicionista, já que um passo importante no fim da escravidão no Brasil, foi proibir novas remeças de africanos vindos pelo atlântico.

A família real e abolicionismo

família imperial brasileira sempre foi abolicionista. Dom Pedro II, embora fosse contrário ao regime escravocrata, protelava as grandes decisões. O que mais o ocupava eram as preocupações com a cultura e as novas tecnologias, porque ele queria o Brasil na dianteira dos processos científicos. 

Era uma característica dele considerar muito penosas as questões que envolviam o lidar com o parlamento.

Apesar disso, na história do Segundo Império, a abolição sempre foi um tema presente na mente de Dom Pedro II e de sua filha, a princesa Isabel.

A princesa, especialmente, tinha como sua principal missão a abolição da escravidão. Ela entendia que a escravidão era um atentado à dignidade humana. 

Enquanto não conseguia isso, fazia o que estava ao seu alcance. Por essa razão, ela sustentou o Quilombo das Camélias no Leblon, Rio de Janeiro, por exemplo.

Mesmo quando estava exilada na Europa e estando a escravidão no Brasil já abolida, a princesa Isabel ainda se preocupava com o que estava contecendo com os negros.

Seu apoio foi fundamental, mas o movimento abolicionista não foi imperial, foi popular e ganhou o apoio da família real. No Brasil, a abolição veio de um ideal abstrato e não por pressão econômica.

Apesar disso, o capitalismo foi um grande motivador do fim da escravidão moderna em geral. Com o tempo percebeu-se que a escravidão não era vantajosa economicamente, já que não aumentava a riqueza substancialmente.

O Fim da escravidão no Brasil

A abolição ocorreu por meio da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888. 

O Brasil, no século XIX, tinha mais negros livres do que negros escravos, por exemplo. 

Entretanto, para cada escravo libertado, havia uma nova pessoa a ocupar seu lugar e ser uma nova mão de obra. Havia uma compensação da liberdade de um com a escravização de outros.

Para resolver o problema da escravidão no Brasil, o processo abolicionista se desenvolveu de forma gradativa por meio de leis que dificultavam cada vez mais a escravidão.

  • Lei Eusébio de Queirós (1850): Proibiu o tráfico negreiro, impedindo que a fonte de novos escravos fosse renovada em território brasileiro.
  • Lei do Ventre Livre (1871): Também foi conhecida como Lei Rio Branco e determinou que os filhos das escravas nascidos a partir da promulgação da lei, seriam considerados livres.
  • Lei dos Sexagenários (1885): Também conhecida como Lei Saraiva-Sergipe, concedeu liberdade a todos os escravos com mais de 60 anos de idade. 

A pressão popular, o movimento abolicionista e as revoltas dos próprios escravos contribuíram juntas para que a escravidão no Brasil fosse desestruturada.

Dom Pedro II, apesar de doente e debilitado fora do Brasil, ficou feliz com a assinatura da lei Áurea. É importante ressaltar estes ascpectos, porque a relação da família imperial com os negros de sua época é pouco explorada.

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Festa da abolição da escravatura

Na biografia de José do Patrocínio, está presente o relato dos acontecimentos que se seguiram à abolição da escravatura.

Foram dias de festa, uma semana inteira com festividades e discursos. A população brasileira esperava pela abolição, os castigos públicos não funcionavam mais e incomodavam a sociedade em geral. 

No dia 17 de maio de 1888 houve uma missa campal celebrada em ação de graças pela abolição da escravatura no Brasil, que contou com mais de 30 mil pessoas.

Machado de Assis possui uma frase famosa sobre a comemoração pela abolição da escravidão no Brasil:

“Foi o único dia de delírio que me lembra ter visto”.

Atualmente, o movimento negro tem uma visão de si mesmo como rejeitado pela sociedade brasileira e por isso aborda o tema da dívida histórica por causa da escravidão e do menosprezo.

José do Patrocínio, com seus jornais, trazia ao público a insatisfação com a escravidão. Seus discursos abolicionistas eram sempre repletos de pessoas já no século XIX. 

Pouco se diz também que grande parte dos negros já estava integrado à sociedade.

Há uma gravura do padre José Maurício, mulato filho de lavadeira, que era o maior improvisador de órgãos no mundo de sua época. Já nessa época, figura negra, foi tirado do anonimato por Dom João VI que o levava para tocar nas festas.

Pelo próprio talento, venceu o preconceito ainda na época da colônia. Foi assim também com Francisco de Paula Brito, primeiro editor brasileiro, Machado de Assis, André Rebouças, e Luiz Gama, nomes importantes da luta abolicionista que são pouco abordados.

O negro brasileiro não é uma figura de segunda classe sempre como se representa. Não foi sempre assim na colônia, não é sempre assim hoje. Por essa razão, é necessário relembrar que o povo brasileiro festejou o fim da escravatura.

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